quarta-feira, 26 de maio de 2010

Desconstruindo Harry

Woody Allen, Elisabeth Shue e Billy Crytal em Desconstruindo Harry


Woody Allen teve coragem pra fazer muitos filmes em um ritmo incansável. Em meados dos anos 90, com sua carreira um tanto abalada ele constrói uma história que se encaixa nele com uma propriedade maior que os outros antigos. Trata-se de um escritor reconhecido e cheio de problemas psicológicos e familiares. Harry Block utiliza seus familiares atingindo seus defeitos com uma acidez descarada e levando em conta um nível determinado por ele, sem o menor consentimento, para criar personagens para suas obras. You take everyone's suffering and turn it into gold, literary gold!” Este é um dos relatos de seus familiares a respeito da criação de seus personagens. Fica claro que o próprio personagem de Harry Block funciona como os demais personagens ficcionais, encaixando-se no próprio Allen. Um roteiro extremamente criativo, ágil e, principalmente, mergulhado numa seleção de piadas fortíssimas que são moldadas sob medida a todos os quais passam aos olhos do diretor. Alguns personagens e cenas deixam o filme um pouco afastado da seriedade maquiada pela comédia de filmes como Memórias (Stardust Memories, 1980), por exemplo. O papel do demônio por Billy Crystal é um exemplo de como Allen deixou um pouco a comédia acima do toque de drama comum em seus filmes. Essa questão de ponderar comédia com drama tornasse menos importante quando o roteiro tem estrutura para tornar o filme original. Desconstruindo Harry (Deconstructing Harry, 1997) é um ótimo filme com um que de autobiográfico e sustentado na criatividade quase inesgotável de Woody Allen. A cena do elevador em direção ao inferno deixa bem claro algumas opiniões do diretor. Cenas hilariantes como quando Kirstie Alley discute com Harry na presença de um paciente. Fica claro também uma referência ao filme Morangos Silvestres (Smultronstället, 1957) do diretor sueco Ingmar Bergman, declaradamente um dos diretores favoritos de Woody Allen. Seja na cena em que Demi Moore acompanha Allen numa visita imaginária com sua família ou quando podemos ver os closes no rosto do protagonista no carro durante as cenas na estrada. Não é questão de classificar como comédia, drama ou coisa parecida. O ato de criar uma historia vem antes da história em si, ficando a cargo exclusivo do roteirista e, nesse caso, também do diretor.

domingo, 23 de maio de 2010

O Lutador

Mickey Rourke e Evan Rachel Wood em O Lutador (The Wrestler, 2008)


É fácil ver certa repugnância da parte do público com filmes que envolvem lutas, principalmente luta com caráter de puro massacre e homens ensangüentados. Porém, é preciso deixar bem claro que o filme O Lutador (Wrestler, The, 2008) não é uma promoção de um esporte ou biografia de algum lutador famoso. Trata-se de um drama carregado com questões que envolvem a vida do protagonista enquanto ser humano. Randy “The Ram” Robinson é um lutador que fez muito sucesso nos anos 80 e levou uma vida dedicada a prática da luta até não possuir mais nenhuma perspectiva e encontrar-se frente a idade e a percepção do fracasso. Randy construiu uma vida onde seu corpo era sua fonte de trabalho, não teve nenhum mérito profissional ou sentimental. Sua vida foi afundando junto com sua carreira. Quando ele sofre um enfarte, acaba percebendo como não possui amigos, nem família próxima ou relação fixa com nada, a não ser com aquilo que acabara de perder. Frente a sua aposentadoria, Randy enfrenta uma crise existencial onde não encontra saída para uma solidão que pesa como uma culpa em sua vida. Randy sustentava sua carreira com o pouco que para ele era suficiente, coisas do tipo ouvir o público gritar com sua presença, ser lembrado por um golpe característico. Ele freqüentava um clube noturno, onde uma dançarina, Cassidy (Marisa Tomei), parecia manter uma identificação com ele, em função de ser uma das mais velhas do grupo e depender do seu corpo. Podemos perceber como o fracasso na vida de alguém pode ser construído sem que se perceba e possa agir a respeito. No caso de Randy, o filme consegue abordar dentro de um ambiente escuro reforçado pela fotografia pesada e quase sempre ofuscada nas cenas de solidão, principalmente, em contraste com a fotografia clara das cenas com a presença da filha. A atuação, bastante comentada, do Mickey Rourke foi fundamental para mostrar o interior solitário de um brutamonte cheio de cicatrizes. O diretor Darren Aronofsky foi responsável por uma escolha certa que sai da tela quando nós fazemos uma ponte com a própria carreira de Mickey Rourke. O personagem esbanja realismo mesmo nas cenas violentas das lutas programadas ou quando discute o rock dos anos 80. Uma das cenas importante do filme mostra um clichê um pouco gasto, porém incrivelmente interpretado. Randy conversa com a filha e implora para que ela não o odeie. O filme inteiro possui algo de independente que incrementa a vida fracassada de um lutador aposentado. O final de O Lutador mostra uma cena com caráter incompleto, porém mais que suficiente para deixar a vida de Randy ainda mais sem rumo, como se voltar pra ringe fosse sua única escolha. A entrada no ringe, quase como um palco para ele, ao som de Sweet Child O’ Mine é finalizada com um discurso que encaixou no personagem perfeitamente. A luta deixa Randy dentro do seu mundo sem garantias de sobrevivência por muito tempo, mas acaba o filme com o rosto satisfeito de Mickey frente a sua realidade e em seu melhor estilo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Stardust Memories

Charlotte Rampling e Woody Allen em Stardust Memories

Lidar com assuntos do tipo lembranças ou recordações sempre encanta cineastas de todos os lugares. Retratar assuntos de seu estrito conhecimento como uma obra essencial para o cinema e que só sustentaria uma homenagem tão aberta se a mesma tivesse sua grandeza própria. No inicio dos anos 1980, o mundo já conhecia a potencialidade do cinema enquanto indústria e muitos cineastas garantiram sua aposentadoria farta criando obras do gênero blockbuster. Surgiam no meio, nomes como George Lucas, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese entre outros. Eles representavam um ressurgimento daquela Hollywood que estava afundando na memória de todos. Representam para o cinema os nomes de grandes obras de caráter imortal e sabiam o que estavam fazendo. Em 1980, Woody Allen no alto de seu ritmo e já vindo da maravilha que foi Manhattan (Manhattan, 1979) resolve abri o seu próximo filme com uma referência clara a 8½ (8½, 1963) de Federico Fellini. Trata-se da cena no trem onde os olhares dos passageiros sufocam o protagonista que se sente perdido num vagão errado e incapaz de escapar deste lugar sinistro em contraposição ao outro vagão que pode ser visto através da janela, cheio de festas e alegrias declaradas. Não é, e isso eu defendo ferrenhamente, fácil fazer qualquer referência que seja. Abri o filme com uma desse tipo é uma proposta de coragem admirável e acrescentando isso a época do cinema que nascia para indústria, o valor da estética em homenagem de Memórias (Stardust Memories, 1980) cresce numa proporção exponencial. Não apenas a cena de abertura, mas todo o filme está recheado de referências do tipo a vida e os relacionamentos do protagonista, sua carreira como cineasta de sucesso, as muitas mulheres na vida do personagem. Juntando todo esse conteúdo prévio no filme ao conteúdo próprio e pessoal de uma grandeza original absurda, tem-se uma das melhores obras de um cineasta que mistura critica ácida a tudo que está ao seu redor e um humor deveras refinado e denso como poucos conseguem. Produzir um filme que é autentico e de caráter de homenagem, original e recheado de humor nada comercial em meio a filmes de uma época como esta configura uma película impecável.
Memórias conta a historia de Sandy Bates, um cineasta renomado e insatisfeito com sua vida. Dispondo de uma obra respeitável, Sandy é convidado a participar de um festival em sua homenagem. Constará de exibições e um posterior diálogo com o público sobre o filme que foi exibido. Tratando-se de Woody Allen, o filme possui momentos de beleza única e maestria no papel de diretor, bem como possui momentos de puro exercício de talento enquanto comediante. As respostas de Sandy aos espectadores do seu filme fazem o elo presente em quase toda sua obra. Montar o seu estereótipo tão reconhecível é tarefa fácil para Allen. Memórias possui uma linha de metalinguagem que não se sustenta em Fellini e sua narrativa brilhante, mas sustenta-se exclusivamente em Allen. A atuação do diretor enquanto protagonista cria essa vertigem maravilhosa que vai além da historia. É impossível não traçar uma ponte com a questão da autobiografia, apesar do próprio ter negado essa perspectiva do filme. Eu recomendo que o leitor veja Memórias bem como outro filme de Woody Allen, que é um incansável diretor sempre exibindo criatividade e talento.

OUTROS BONS TÍTULOS: Manhattan; Annie Hall; Hannah and Her Sisters.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

SOBRE AVATAR

Cena do filme Avatar

Agradar nem sempre é uma tarefa fácil. A trama de Avatar (Avatar, 2009) baseia-se em alguns pontos importantes, são eles: questões ambientais e crítica à prática da guerra com ênfase no poder bélico. Outros aspectos são abordados como a alusão a toda cultura indígena e sua relação com a natureza. A produção de Avatar vem sendo comentada desde o final dos anos 1990 com a grandiosidade financeira que foi Titanic (Titanic, 1997). James Cameron conseguiu agradar, sim, a muitas pessoas que se sensibilizam com a destruição da fauna e flora de um ambiente tão bem montado, ou com quem se identifica com a construção de um personagem e seu relacionamento amoroso. O problema de Avatar está no roteiro. Fraco e teve sua consistência aguada com a preocupação excessiva em chocar com a referência aos problemas ambientais atuais, já em pauta numa perspectiva bem comentada. O roteiro de Avatar está fraco em pontos do tipo personagens rotulados de “mocinhos ou vilões”, o desenvolvimento deles se baseia na construção da historia e deveria crescer ao ritmo do filme. O problema está no fato de que um “final feliz” não exigi um enfraquecimento dos personagens que agem para um final contrario ao feliz. Os “vilões” estão no filme com um objetivo maquiado de representar a consciência malvada de quem quer destruir as florestas e toda sua riqueza. Os pontos importantes não foram integrados ao filme e estão quase que fora dele. Alguns espectadores vêem todo o poder americano e sua provável intenção diante uma riqueza em potencial, no filme, citada como um minério localizado nas regiões habitadas pelos nativos. Outros espectadores vêem toda a nossa responsabilidade enquanto donos desses bens que teoricamente deveriam ser coletivos e não utilizados com propósitos individuais. O roteiro não tem estrutura para quem passa os olhos além desses dois pontos. Quem tenta realizar essa proposta encontra uma bandeja incrivelmente bem trabalhada que ocupa 60% da projeção e está recheada de efeitos gráficos.
Sendo assim, o filme possui questões sócio-culturais que, por falha do roteiro, estão fora do filme e dentro do mesmo só é possível encontrar uma indústria cinematográfica violenta capaz de fazer um investimento de US$ 500.000.000 tornar-se US$ 2.697.332.678, aproximadamente e distribuídos pelo mundo vestindo o rótulo, nada agradável entre os críticos, de blockbuster mais caro já produzido e maior bilheteria já acumulada. Quando o mundo viu James Cameron criar Titanic e todo seu rio de dinheiro posterior, ficou difícil lembrar-se de filmes muito bons como O Exterminador do Futuro (Terminator, The, 1984) e sua primeira seqüência. Do ponto de vista crítico e visando um cinema mais denso e de cunho artístico, o cinema de Cameron acaba ficando rotulado e isso não trás boas conseqüências para as futuras produções.
Como estamos falando de Avatar, o filme é belo na sua produção e na sua intenção, porem é fraco na sua essência. No Oscar, Avatar partiu com 9 indicações e chegou com 3 estatuetas. Não estou questionando os critérios dos responsáveis, mas enxergo essa interpretação de estranheza e credito toda ela ao movimento que foi Titanic. Não é difícil encontrar pessoas questionando o número de Oscar que foi dado a Avatar, porém essa sensação se deve a credibilidade dada a uma produção que ainda nem existia quando Cameron saiu por ai dizendo que ia revolucionar o cinema. Novamente, não estou questionando os critérios do Oscar mais pontuo como negativo para o diretor essa impressão de injustiça pela parte do Oscar para com Cameron, que por sua vez, está condenado a criar uma seqüência que ultrapasse os olhos leigos e chegue aos olhos da academia com uma essência mais trabalhada. Isso se não quiser estragar uma seqüência certa que está por vir. Quando Titanic ganhou 11 estatuetas, Cameron provavelmente viu que o mundo não aceita uma obra menor que outra da grandeza de Titanic tratando-se do mesmo diretor, e soube preenche-la para esse público. Agradar a todos é uma tarefa impossível. Minhas considerações sobre o filme estão entre saber ponderar os efeitos diante do roteiro e considerar com mais firmeza a atuação, mesmo as expressões dos Na’vi estando incrivelmente realistas, as atuações de uma maneira geral foram deixadas um pouco de lado. Os pontos positivos estão mais fortes mesmo na técnica. Que esbanja grandiosidade e fotografia. Prova de que o filme é uma boa experiência está no tempo que apesar de se estender por quase três horas flui de uma maneira muito agradável. Cameron acertou em muitos pontos, resta saber quais eram suas intenções, sendo elas financeiras ou artísticas, ou as duas juntas. Criou um filme de um teor incrivelmente competente no que cabe ao entretenimento. Avatar não está para o cinema como inovador absoluto e nem como divisor de águas. Trata-se de distribuir as suas limitações de acordo com o que o filme pode nos proporcionar.