domingo, 23 de maio de 2010
O Lutador
É fácil ver certa repugnância da parte do público com filmes que envolvem lutas, principalmente luta com caráter de puro massacre e homens ensangüentados. Porém, é preciso deixar bem claro que o filme O Lutador (Wrestler, The, 2008) não é uma promoção de um esporte ou biografia de algum lutador famoso. Trata-se de um drama carregado com questões que envolvem a vida do protagonista enquanto ser humano. Randy “The Ram” Robinson é um lutador que fez muito sucesso nos anos 80 e levou uma vida dedicada a prática da luta até não possuir mais nenhuma perspectiva e encontrar-se frente a idade e a percepção do fracasso. Randy construiu uma vida onde seu corpo era sua fonte de trabalho, não teve nenhum mérito profissional ou sentimental. Sua vida foi afundando junto com sua carreira. Quando ele sofre um enfarte, acaba percebendo como não possui amigos, nem família próxima ou relação fixa com nada, a não ser com aquilo que acabara de perder. Frente a sua aposentadoria, Randy enfrenta uma crise existencial onde não encontra saída para uma solidão que pesa como uma culpa em sua vida. Randy sustentava sua carreira com o pouco que para ele era suficiente, coisas do tipo ouvir o público gritar com sua presença, ser lembrado por um golpe característico. Ele freqüentava um clube noturno, onde uma dançarina, Cassidy (Marisa Tomei), parecia manter uma identificação com ele, em função de ser uma das mais velhas do grupo e depender do seu corpo. Podemos perceber como o fracasso na vida de alguém pode ser construído sem que se perceba e possa agir a respeito. No caso de Randy, o filme consegue abordar dentro de um ambiente escuro reforçado pela fotografia pesada e quase sempre ofuscada nas cenas de solidão, principalmente, em contraste com a fotografia clara das cenas com a presença da filha. A atuação, bastante comentada, do Mickey Rourke foi fundamental para mostrar o interior solitário de um brutamonte cheio de cicatrizes. O diretor Darren Aronofsky foi responsável por uma escolha certa que sai da tela quando nós fazemos uma ponte com a própria carreira de Mickey Rourke. O personagem esbanja realismo mesmo nas cenas violentas das lutas programadas ou quando discute o rock dos anos 80. Uma das cenas importante do filme mostra um clichê um pouco gasto, porém incrivelmente interpretado. Randy conversa com a filha e implora para que ela não o odeie. O filme inteiro possui algo de independente que incrementa a vida fracassada de um lutador aposentado. O final de O Lutador mostra uma cena com caráter incompleto, porém mais que suficiente para deixar a vida de Randy ainda mais sem rumo, como se voltar pra ringe fosse sua única escolha. A entrada no ringe, quase como um palco para ele, ao som de Sweet Child O’ Mine é finalizada com um discurso que encaixou no personagem perfeitamente. A luta deixa Randy dentro do seu mundo sem garantias de sobrevivência por muito tempo, mas acaba o filme com o rosto satisfeito de Mickey frente a sua realidade e em seu melhor estilo.
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