terça-feira, 1 de junho de 2010

Questão de Gosto

gravações de laranja mecânica


Não é questão de definir o bom e o ruim no cinema. A questão é ter a consciência de que existem tantos bons e tantos ruins, não importando quem defina o critério. Infinitas listas aparecem constantemente e acumulam opiniões, que muitas vezes convergem em alguns pontos, bem como divergem em outros. Essas listas não definem nada. Pelo simples motivo da essência do que se trata. Parece óbvio, mas vale ressaltar que ninguém vê o mesmo Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, 1971) por motivos que excedem a produção até mesmo para quem a cria. Existem pessoas que assistem ao filme com a intenção restrita de acompanhar o desenvolvimento da história, traçar interpretações idiossincráticas, amarrar pontos potenciais de abordagem, enfim, não se pode chegar a um consenso, uma vez que toda obra possui uma individualidade tão suprema que foge aos olhos de quem quer que seja. Isso se aplica a toda forma de arte. O papel dos cinéfilos é tirar o filme da tela. Eu posso achar um filme muito bom, derramar elogios em cima dele. Minha opinião não tem obrigação de convergir com outras e tornar comum um critério individual, que por mérito do filme, distribui-se entre muitas opiniões. Porém, nós sabemos que existem, sim, filmes grandes e pequenos. Citei Laranja Mecânica pelo simples fato de admirar o trabalho de Stanley Kubrick e gostar muito desse título. O que está fora da tela nesse caso é o fato de que pessoas viram e a partir de então decidiram tornasse cineastas. Laranja Mecânica influenciou muitos diretores e apreciadores de todos os lugares. Característica que não depende de listas ou opiniões para engrandecer o filme. Esse foi um exemplo. Um contra argumento seria o fato de muitos filmes da mesma época não conseguiram atingir patamares do tipo saber encaixar música, movimento de câmera e linguagem verbal e não verbal numa seqüência memorável de abertura. Arrisco-me a dizer que a abertura de Laranja Mecânica é uma manifestação única e estritamente reservada ao cinema. Intransponível para literatura, ou arte que se trate. Refiro-me ao fato de ser quase impossível descrever tal cena em outra manifestação artística ou narrativa. Muitos filmes abraçaram o posto de obra prima e os méritos pertencem ao próprio filme. Como confrontar opiniões que divergem e manter um caráter externo e firme para alguma produção tornar-se obra prima? Pegaremos um clássico do cinema sueco, drama visceral e denso a ponto de ser assustador. Gritos e Sussurros (Viskningar och Rop, 1972), definitivamente, não é filme para ver em família em um programa de domingo. Não é produto de entretenimento. Uma montagem que congela os olhos sobre as cores marcadas em cada momento. A expressão nos rostos remoendo dores inconsoláveis. Por que uma produção que provoca tantas reações torna-se obra prima? A intenção de Bergman era mostrar o drama que movia sua imaginação. E ele consegue. Da mesma maneira que Kubrick em Laranja Mecânica. O talento pra sustentar a obra está na capacidade de transmiti-la. Filmes que mostram cachorros falando ou bebês enganando pessoas com suas mentes super desenvolvidas podem ser obras primas. No instante em que ocuparem seus personagens com um mínimo de consideração. Quando possuírem estrutura para desenvolver um roteiro interessante e original. Quando os bebês possuírem, além de um estereótipo aceitável pela simpatia, uma expressão que não deve ser convincente, não é questão de apenas convencer, mas que possa infiltrar seu personagem em muitos espectadores. Fazer com que eles acompanhem o ritmo do filme, que quando é ruim deixa brechas para conversas e até para comentários a respeito da péssima qualidade do filme. Definir um bom filme é tarefa difícil e merece muita atenção. Mas trata-se de um exercício gratificante e compensador.

FILMES CITADOS:

Gritos e Sussurros (Viskningar och Rop, Suécia, 1972, dir: Ingmar Bergman)

Laranja Mecânica (A Clockwork Orange, USA/UK, 1971, dir: Stanley Kubrick)

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