sexta-feira, 21 de maio de 2010

Stardust Memories

Charlotte Rampling e Woody Allen em Stardust Memories

Lidar com assuntos do tipo lembranças ou recordações sempre encanta cineastas de todos os lugares. Retratar assuntos de seu estrito conhecimento como uma obra essencial para o cinema e que só sustentaria uma homenagem tão aberta se a mesma tivesse sua grandeza própria. No inicio dos anos 1980, o mundo já conhecia a potencialidade do cinema enquanto indústria e muitos cineastas garantiram sua aposentadoria farta criando obras do gênero blockbuster. Surgiam no meio, nomes como George Lucas, Francis Ford Coppola, Martin Scorsese entre outros. Eles representavam um ressurgimento daquela Hollywood que estava afundando na memória de todos. Representam para o cinema os nomes de grandes obras de caráter imortal e sabiam o que estavam fazendo. Em 1980, Woody Allen no alto de seu ritmo e já vindo da maravilha que foi Manhattan (Manhattan, 1979) resolve abri o seu próximo filme com uma referência clara a 8½ (8½, 1963) de Federico Fellini. Trata-se da cena no trem onde os olhares dos passageiros sufocam o protagonista que se sente perdido num vagão errado e incapaz de escapar deste lugar sinistro em contraposição ao outro vagão que pode ser visto através da janela, cheio de festas e alegrias declaradas. Não é, e isso eu defendo ferrenhamente, fácil fazer qualquer referência que seja. Abri o filme com uma desse tipo é uma proposta de coragem admirável e acrescentando isso a época do cinema que nascia para indústria, o valor da estética em homenagem de Memórias (Stardust Memories, 1980) cresce numa proporção exponencial. Não apenas a cena de abertura, mas todo o filme está recheado de referências do tipo a vida e os relacionamentos do protagonista, sua carreira como cineasta de sucesso, as muitas mulheres na vida do personagem. Juntando todo esse conteúdo prévio no filme ao conteúdo próprio e pessoal de uma grandeza original absurda, tem-se uma das melhores obras de um cineasta que mistura critica ácida a tudo que está ao seu redor e um humor deveras refinado e denso como poucos conseguem. Produzir um filme que é autentico e de caráter de homenagem, original e recheado de humor nada comercial em meio a filmes de uma época como esta configura uma película impecável.
Memórias conta a historia de Sandy Bates, um cineasta renomado e insatisfeito com sua vida. Dispondo de uma obra respeitável, Sandy é convidado a participar de um festival em sua homenagem. Constará de exibições e um posterior diálogo com o público sobre o filme que foi exibido. Tratando-se de Woody Allen, o filme possui momentos de beleza única e maestria no papel de diretor, bem como possui momentos de puro exercício de talento enquanto comediante. As respostas de Sandy aos espectadores do seu filme fazem o elo presente em quase toda sua obra. Montar o seu estereótipo tão reconhecível é tarefa fácil para Allen. Memórias possui uma linha de metalinguagem que não se sustenta em Fellini e sua narrativa brilhante, mas sustenta-se exclusivamente em Allen. A atuação do diretor enquanto protagonista cria essa vertigem maravilhosa que vai além da historia. É impossível não traçar uma ponte com a questão da autobiografia, apesar do próprio ter negado essa perspectiva do filme. Eu recomendo que o leitor veja Memórias bem como outro filme de Woody Allen, que é um incansável diretor sempre exibindo criatividade e talento.

OUTROS BONS TÍTULOS: Manhattan; Annie Hall; Hannah and Her Sisters.

Um comentário:

  1. Jorge Witt,

    Bom saber dessa iniciativa... Prossiga!

    Bons estudos acadêmicos...rsrsrsr!

    Abraço,
    Prof.Charles Bronson

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